Surpreender-se

#A jornada de ser eu apesar de tudo.

Engraçado…

Chega uma fase da vida em que colecionamos certezas. Prometemos a nós mesmas que não vamos mais nos permitir, nem nos entregar, nem depositar em ninguém aquilo que demoramos tanto para reconstruir. O foco passa a ser um só: cuidar de si, proteger a própria paz, não criar expectativas e seguir em frente.

Então alguém aparece.

Adiciona você em uma rede social. Nada demais. Provavelmente só mais uma pessoa aumentando a lista de seguidores. Você olha algumas fotos, curte as que chamam atenção e volta para a vida real. Trabalho, rotina, responsabilidades, metas, o compromisso silencioso de não deixar ninguém atravessar a muralha que levou tanto tempo para erguer.

Até que um comentário vira conversa.

Sem pretensão. Sem estratégia.

“Você treina sempre?”
“De onde você é?”
“O que faz da vida?”

Entre uma resposta e outra existe o tempo da vida acontecendo. Uma adormece depois de um plantão exaustivo. A outra termina mais um dia tentando dar conta da empresa, das cobranças e dos próprios fantasmas. As horas passam. Cada uma enfrenta seus medos sem imaginar que, do outro lado da tela, alguém começa a ocupar um espaço que nem existia.

À noite, depois de um banho demorado e do conforto do pijama, a conversa reaparece.

Ainda sem intenção.

Ainda sem destino.

Então surge um convite. Quase despretensioso. Um “já que não estou fazendo nada…”.

Tudo acontece rápido demais.

E, no fundo, o que é uma pequena loucura diante de uma vida inteira tentando controlar tudo?

Era para ser um dia comum. Um encontro comum. Duas pessoas comuns.

Mas talvez seja justamente nos dias em que não esperamos absolutamente nada que a vida resolve nos surpreender.

Não houve restaurante sofisticado. Nem roupas escolhidas para impressionar. Nenhuma máscara. Nenhum personagem.

Só pijama, pipoca, um filme cujo nome já nem importa e uma Coca-Cola sem gás… que, mais tarde, virou uma Cuba Libre.

Simples assim.

E, ainda assim, inesquecível.

Porque existem beijos que parecem ter esperado uma vida inteira para acontecer. O cheiro da pele deixa de ser apenas um perfume e se transforma em abrigo. Os corpos se encontram como se compartilhassem a mesma temperatura, o mesmo ritmo, a mesma linguagem.

A química não invade.

Ela reconhece.

Uma noite vira uma semana. E, sem perceber, aquela necessidade de se proteger desaparece. As barreiras caem sem esforço. O medo não é vencido por insistência, mas por delicadeza.

E é justamente aí que nasce um novo receio.

O de perder.

Curioso… quanto mais ela passa a importar, menos faz sentido fugir.

Como alguém que não conhecia a sua história consegue alcançar lugares onde ninguém mais chegou? Sem promessas, sem jogos, sem exigir nada em troca. Apenas sendo.

Duas mulheres maduras. Fortes. Independentes. Marcadas pelas próprias cicatrizes.

De repente, fazem a escolha mais improvável de todas.

Escolhem permanecer.

Escolhem dividir o tempo.

Escolhem transformar qualquer instante comum em um lugar para onde sempre desejam voltar.

E então surge a pergunta.

Como se chama isso?

Confiança?

Destino?

Entrega?

Paixão?

Desejo?

Talvez nenhuma dessas palavras seja suficiente.

Porque existem encontros que não cabem em definições.

Eles simplesmente atravessam tudo o que fomos, desmontam tudo o que jurávamos nunca mais sentir e, quando percebemos, já não existe um futuro que pareça completo sem o calor do outro ao lado.

E talvez seja exatamente isso que torna algumas pessoas inesquecíveis: elas chegam sem fazer barulho, desmontam todas as nossas certezas e, quando nos damos conta, já se tornaram o lugar onde o coração finalmente encontra descanso.

Consciência

#A jornada de ser eu apesar de tudo.

Não tento mais acelerar o que a vida já está organizando.

Há algum tempo, uma decepção era capaz de me tirar a paz por dias. Agora eu sinto, aceito, treino, trabalho, faço as coisas que gosto, cuido de mim e sigo em frente. Isso não significa que fiquei fria; significa que fiquei mais consciente.

Não procuro motivos para sofrer antes do tempo. O que é verdadeiro não depende de ansiedade para acontecer.

Algumas portas só se abrem quando paramos de empurrá-las e seguimos caminhando.

Onde Nos Perdemos

#A jornada de ser eu apesar de tudo.

A gente costuma acreditar que o fim de uma relação acontece de repente. Quase nunca acontece.

Na maioria das vezes, ele começa quando deixamos de olhar um para o outro com curiosidade. Quando paramos de perguntar como o outro está vivendo a própria vida e passamos a acreditar que já sabemos todas as respostas.

O tempo muda as pessoas. Muda as prioridades, os medos, os sonhos e até a forma de amar. E isso não significa que alguém esteja errado. Significa apenas que ninguém permanece exatamente igual.

Talvez o maior erro dentro de uma relação seja amar a lembrança de quem a pessoa foi, enquanto ela já está tentando existir de outro jeito.

Quando isso acontece, a distância nem sempre aparece na falta de mensagens ou de carinho. Às vezes ela nasce no silêncio de quem já não se sente visto, compreendido ou escolhido.

Hoje eu entendo que alguns finais não acontecem por falta de amor. Acontecem porque duas pessoas deixaram de conseguir se encontrar no mesmo lugar.

E tudo bem.

Nem toda despedida precisa carregar culpa. Algumas carregam apenas o reconhecimento de que insistir já não faria sentido.

A vida continua transformando cada um de nós. E talvez a forma mais bonita de amar seja aceitar que algumas pessoas caminham ao nosso lado apenas por um trecho do caminho.

O importante é que, quando uma história termina, a gente não deixe de continuar caminhando.

Porque quem permanece em movimento sempre acaba encontrando novos lugares, novas versões de si mesmo e, quando for a hora, novos encontros.

A Vida

#A jornada de ser eu apesar de tudo.

Ainda sigo levando algumas cacetadas da vida.

É impossível não criar expectativas quando algo bom acontece. E também não vou mentir: quando vai embora, leva consigo um pedaço importante da minha alegria.

A diferença é que os altos e baixos da vida não me param mais. Não me fazem desacreditar que o melhor ainda está por vir.

O que é meu encontra o caminho até mim. E eu sinto isso com uma intensidade tão grande que chega a ser palpável.

Estou deixando as coisas se acalmarem aqui dentro mais uma vez. Sem muitos planos. Sem grandes expectativas. Apenas acreditando que, no final, tudo se encaixa.

E entendendo que a vida é assim mesmo. Alguns detalhes simplesmente chateiam. Nem tudo acontece como queremos. Na verdade, a maioria das coisas nem está sob o nosso controle.

Sigo em frente, extraindo o melhor de tudo. Porque, mesmo quando a vida tira algo de nós, ela sempre encontra uma forma de devolver algo novo.

#A jornada de ser eu apesar de tudo.

O que me atormenta é que tudo é “por enquanto”, nada é “sempre”.


(Clarice Lispector: esboço para um possível retrato, de Olga Borelli)

Mudanças

#A jornada de ser eu apesar de tudo.

Quando a energia muda, a vida muda junto.

De repente, o universo começa a te apresentar tantas coisas boas que fica até difícil escolher por onde começar.

As pessoas chegam. As experiências acontecem. Novos gostos surgem. E tudo aquilo que existe de melhor em você volta a transbordar.

Isso aparece nos encontros, nas oportunidades e na gratidão por perceber quantas pessoas vibram pela sua felicidade. Pessoas que torcem por você, que se preocupam, que celebram suas conquistas e se alegram genuinamente ao te ver bem.

É nesse momento que você finalmente enxerga a sua dimensão.

Percebe quem é. O que representa. O impacto que causa.

Entende que é único.

E que, às vezes, apenas a sua presença é capaz de provocar um verdadeiro terremoto de transformação na superfície da vida de quem cruza o seu caminho.

Sinto hoje uma saudade gostosa, diferente daquela saudade que machuca.

Ela não vem acompanhada de aperto no peito, necessidade de controle ou medo constante de perder a pessoa. Ela simplesmente me faz sorrir quando lembro de um momento, sinto vontade de reencontrar e continuar vivendo a vida enquanto isso.

Não porque essa nova pessoa seja “a pessoa certa” ou porque vá durar para sempre. Mas porque voltei a sentir curiosidade, desejo, expectativa boa e vontade de compartilhar momentos.

Sem precisar decidir agora o que isso é.

É  alguém que me faz sorrir quando manda mensagem, que dá friozinho bom antes de encontrar e que me deixa com saudade quando vai embora.

Se virar algo maior, descobriremos com o tempo. Se não virar, ainda assim ela pode ter sido a pessoa que me lembrou que continuo capaz de me conectar, desejar e ser desejada.

Virada de Chave

#A jornada de ser eu apesar de tudo.

O amor transforma. A dor transforma. A verdade transforma. Mas nada transforma tanto quanto a decepção.

É quando entendemos o quanto realmente representamos para alguém quando ela já não precisa de nós. Quando deixamos de fazer parte da rotina, da presença constante, do cotidiano. De repente, parece que tudo é anulado. Tudo o que foi bom é esquecido. Em algum momento, passamos a não ser mais nada. Somos deixados para trás.

Mas também sei que tudo nesta vida tem algum sentido, mesmo quando ainda não conseguimos enxergá-lo.

As pessoas vêm e vão. Ficam os aprendizados, que muitas vezes chegam de forma dolorosa, mas são genuínos. Há momentos em que uma chave gira dentro de nós. Passamos a compreender nosso valor independentemente da visão do outro. Porque, no fim, o que realmente nos resta é não perder nossa essência.

Erros acontecem. O importante é reconhecê-los e não repeti-los.

Eu valorizo tudo o que houve. Hoje entendo que só posso controlar minhas próprias ações — algo que, muitas vezes, eu não soube fazer.

Todos os dias somos testados. E tudo o que precisamos decidir é de que forma queremos atravessar esse teste.

Hoje, eu escolho passar por ele com leveza. Sem excessos. Sem me julgar tanto. Eu me responsabilizo por tudo o que fiz. Aprendo, sigo em frente e tento evoluir.

Porque crescer não é apagar o passado. É fazer as pazes com ele.

Gratidão Ao Que Ficou Para Trás

#A jornada de ser eu apesar de tudo.

Eu sou grande demais para caber nas limitações que os outros insistem em enxergar.

Sou mais do que as expectativas. Mais do que os rótulos. Mais do que aquilo que tentaram definir sobre mim.

Para mim, não existe o “não sou capaz”. Não existe o “não é possível”. Porque eu sempre fui além. Além do que esperavam. Além do que viam. Além do que acreditavam que eu poderia ser.

Quem me julga jamais precisou carregar o peso de ser eu. Esse mérito me pertence. Essa caminhada é minha.

E aqueles que despertaram minha pior versão, que a guardem como lembrança. Porque ela não voltará. Eu me reencontrei. E nunca mais permitirei que me afastem de quem sou.

Eu domino minhas palavras. Domino minha mente. Domino minha própria essência.

A energia que carrego não pode ser copiada. A potência que emano não pode ser encontrada em qualquer lugar. Tenho uma intuição que nunca deixou de me mostrar o caminho.

Por um tempo, me desconectei de tudo isso.

Talvez para caber em espaços que nunca foram meus. Convenci a mim mesma de que o pouco bastava.

Mas eu mereço mais.

E mais importante: eu sei chegar lá.

Aos que ficam, desejo sorte. Que sejam felizes onde estão. O extraordinário exige coragem, disciplina e renúncia. E eu nunca fui feita para me contentar.

Esperei que alguém caminhasse ao meu lado nessa jornada. Mas agora entendo: existem caminhos que só podem ser percorridos por quem tem coragem de sustentá-los.

Hoje eu reconheço a minha força.

Hoje eu lembro quem eu sou.

Agora eu vejo.

Agora eu sinto.

Agora eu escolho.

O que ficou pra trás cumpriu o seu papel.

Culpa.

#A jornada de ser eu apesar de tudo.

Eu estive te eximindo de qualquer culpa. Talvez até peguei ela pra mim. Quis acreditar o tempo todo que tudo tinha sido um excesso, uma fala no momento errado que tomou uma proporção maior do que a realidade.

Que você não soube voltar atrás em tudo que disse e estava tentando encontrar uma forma de consertar tudo.

Na minha cabeça foi simplesmente um momento de raiva, de falas desconexas e você não quis causar nenhum mal, considerando o que realmente vivemos.

Mas a realidade é outra.

Em algum momento você decidiu que agiria desta forma, doa a quem doer.

E você foi clara comigo.

Eu é que não quis ver.

Continuei esperando.

Mas isso não aconteceu.

Agora preciso pegar tudo isso, colocar dentro de uma caixinha. Esquecer, aprender… ou talvez eu nem saiba exatamente o que fazer.

Só sei que vou seguir.

Seguir para algum lugar que ainda não conheço.

E entender isso dói tanto.