#A jornada de ser eu apesar de tudo.

Tem dores que não aparecem nas grandes despedidas, mas nos detalhes que ainda esperam alguém.
Mesmo com a mente mais silenciosa, o coração batendo no ritmo habitual, o peito sem doer tanto e a bola na garganta já quase desaparecendo deixando a comida descer….os detalhes ainda me pegam desprevenida.
O pedaço do lanche que sobra no prato e não existe mais ela para terminar.
Não ter mais alguém para dar bom dia com a cara amassada e o pescoço com um cheiro ímpar.
As idas ao supermercado.
O copo que sobra na pia.
O vazio no guarda-roupa.
A mensagem que não chega.
O reflexo automático de pegar o celular para contar algo.
Quem vai comprar o shampoo agora?
Escolher o papel higiênico com o melhor custo-benefício?
Quem vai me ajudar a levar o gato para castrar ?
Fazer um jantar no improviso com o que temos na geladeira ?
Pois é, ninguém estará mais comigo nesses momentos. Os hábitos ficaram sem destino.
E talvez seja justamente isso que mais dói: perceber que existem ausências que não dependem mais da minha vontade.
Ainda penso nisso por horas todos os dias.
Mas agora existe mais entendimento, menos excessos e um pouco mais de aceitação. E isso, para mim, já é um grande passo.
Tenho olhado para dentro.
E, nesse processo, descoberto tanto sobre mim.
Chegou a hora da reconstrução.
Unir o que restou àquilo que desejo ser.
Como um ato de coragem, porque exige que eu seja, ao mesmo tempo, a demolição e a arquiteta.
Não se trata de esquecer o passado, mas de ter coragem de atravessar os próprios escombros, aprender e seguir em frente construindo um novo alicerce.
Porque, embora eu não possa mudar o que desmoronou, as peças necessárias para construir um novo caminho mais consciente estão nas minhas mãos.
