#A jornada de ser eu apesar de tudo.

Hoje eu funcionei no 220V.
Talvez tenha sido o dia mais proativo dos meus últimos oito anos. Fiz coisas que penso em fazer há tanto tempo que já nem sei mais desde quando — e também não sei por que nunca tinha feito antes.
Só fiz.
Sem arquitetar demais. Sem esperar o momento perfeito. Sem aquela necessidade de deixar tudo impecável antes de colocar no mundo. Foi simplesmente: pensei, fiz.
E me senti absurdamente bem com isso.
Mas, se me perguntarem o motivo de eu estar assim… eu não sei responder.
Ansiedade?
Necessidade de me sentir útil?
Bem-sucedida?
Ou talvez uma tentativa desesperada de não pensar em você?
Também não sei.
O fato é que, depois de fazer tanto, pensar tanto e escrever tanto sobre superação, um sentimento muito forte me atravessou: a sensação de que você vai voltar.
Foi tão intenso que eu quase senti a temperatura do seu corpo abraçando o meu. Arrepiei. Sorri sozinha. E, por alguns segundos, me animei com a possibilidade de você viver comigo essa minha fase tão transformadora.
Pode ser só um lapso de negação. Pode.
Mas aprendi que ignorar minhas intuições geralmente é apenas adiar algo que, cedo ou tarde, eu acabarei entendendo. Então talvez eu só precise esperar mais um pouco.
Ou talvez tudo isso exista apenas porque sonhei com você esta noite, e meu cérebro ainda se recuse a aceitar que não foi real — querendo, a qualquer custo, mais uma dose da sua presença.
No sonho, eu te abraçava forte. Beijava seu rosto, seus olhos, sua testa, sua barriga. E repetia, quase implorando, o quanto te amava e que você nunca mais deveria fazer aquilo com a gente.
Então eu acordei.
E acho que passei o dia inteiro fugindo desse sonho. Ou talvez tenha feito tudo o que fiz justamente para não precisar encarar a sensação de ter você perto outra vez. O cheiro. O toque. O conforto.
Até que, num banho cansado, a ficha caiu.
Talvez essa certeza absurda de que você vai voltar — acompanhada dos arrepios e dessa vontade involuntária de sorrir — seja apenas um resquício inconsciente deixado pelo sonho, impregnado em alguma memória celular minha que ainda não aprendeu a diferenciar saudade de presença.

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